Não levo saudades

“Não levo saudades desta vida” – disse ele e escrevo eu.

“Não diga isso. Tem neta, filhos saudáveis, mulher dedicada, que mais quer?”

Aproximou-se tão perto, baixou a voz – “Estou aqui na vertical, nem sei como, não há canto do corpo que não me doa, nem mesmo a alma. Tenho setenta anos e trabalho 15 horas por dia. Atrás de um balcão, aturo má educação, nem vejo Sol. Estou cansado. Muito.” – encostou-se ao balcão atrás dele.

“O mais espantoso, no meio desta atrapalhada toda, funciona. Isto funciona, mesmo no meio do caos.” – Disse-lhe o outro e escrevo eu.

 

os outros e tu como anti-outro

E se vais lendo o que se vai dizendo, acertas num sítio que não esperavas. Não há alguém que guarde um gesto sincero, humano, sobre o outro que não conhece e que nunca o viu mais gordo? E fica certo, mais certo ainda com a idade que vais carregando, que não há nada que faças que não seja estúpido, palerma ou “farias melhor outra coisa qualquer”. Isso. Mesmo isso, mesmo que a tua intenção seja a suprema e sincera, por mais bem intencionado que sejas ou estejas.

Vem sempre o ou a que diz “esse filho da puta quer é tacho, protagonismo ou está metido numa tramóia qualquer, enganando uns e outros, tem é mania, ou melhor seria ficar quieto, para que quer ele fazer isso?” E vai ficando mais apertado quando isso se esconde em todas as conversas que não ouves. E se fizeres delas suposição, pior para ti, arremessaste para um sofá de onde só sais quando o corpo dorido se mandar para a cama.

Neste e noutro tempo, a inveja é o agoiro, a má língua é tão antiga que suporta até o desprezo, o escárnio e o mal dizer. E tu também o fazes, quando fazes de outro.

Ai, ai, vem de tão longe que serve de suporte ao desprezo pelo outro, e se bem vindo pela política vai dar em merda da valente. Não é que o anti-outro não exista,, desapareça, ou se vá de vez. Vai daí, segues essa mesma conclusão, o ser humano dança conforme a música política do momento, aqui é um ali, e tu és o outro, o que torna difícil de julgar quem quer que seja. Melhor, melhor é ouvires o que dizes, fazeres o que dizes e responderes ao que perguntas, o resto são as vozes ruído que não fazem de ti nem homem nem mulher, antes te fazem um desumano carunchoso e bafiento.

essaoutra mão

Houve uma mão que segurou essaoutra mão, mais pequena, que segurava essaoutra mão maior. Se passeavam ou não, se iam ou vinham de casa, certo é que caminhavam juntos, à velocidade um do outro, com a alegria de quem fala de si para si. Se foi breve ou não, não se sabe, sabemos sim que naquele instante, uns minutos para trás outros para a frente, era de alegria que levavam, de estar juntos, de falar juntos, do que fizeram ou do que fariam. Não sabiam era que muito tempo depois estariam separados, mesmo que se falassem, mesmo que se escutassem, veio uma nódoa que não era de outrem, mas da responsabilidade de um e outro, e que os separou. Falou-se disso. Mas eles não. Entre eles só conversa fiada. Disse outro, com mais tempo na pele, que isso vai mesmo assim, igual a tantas outras mãos, aqui e noutros lugares, com estas e outras pessoas. Segue-se de felicidade em felicidade, passando pela infelicidade de não se segurar essa mão nunca mais, e não é porque esteja longe é só porque o amor desapareceu como areia entre os dedos. E que irás fazer? Deixa-me chorar, mesmo que nenhuma lágrima caia.

Franz E., dezembro 2016

prometo

prometo que amanhã serei outro, mais isto e menos aquilo, mais assado do que cozido, no sentido oposto do que tem sido. Prometo.

velocidade, pouca terra

se te perguntassem a diferença. a diferença nos quarentas anos. dirias, a velocidade? Eu sim. a velocidade, só por si é inevitável. e é ao mesmo tempo o que se sente mais. mas tão exagerada, tão exagerada, que tira o sumo a tudo isto a que se chama vida. e se ela pode ter sumo. falo da vida. tem sumo, muito. quem fica parado? Ninguém. mas a esta velocidade consumimos energia a uma razão tão exagerada, uma potência que já não supreende ninguém mas que nos deixa ansiosos por silêncio de tempos a tempos. e nesse silêncio vê-se o tempo que se gasta em ninharias desnecessárias. é como comer uma pêra nascida num pomar esquecido. mais pequena, menos vistosa, mas com um sumo, encorpada pela pouca velcoidade mas muita terra, muito cheiro e tempo para a acariciar, cheira e paladar. um paladar tal que cada dentada é um segredo que queremos guardar.

“levo duas horas daqui ali, eu levo três dias, se puder, mas quero sempre demorear mais tempo, sempre”, Franz E., nov 2016

doente

Disse ele – “é isso. estou doente. nem falo das dores de fora. é mais as de dentro. disrupções éticas. lamentações teóricas. fodelhisses miseráveis. nadisses sem jeito nenhum. que interessa. a mim vem de dentro e descaca o ovo, fico em carne viva”

Do outro lado da secretária, via-lhe a careca seca, baloiçando à vez, daqui para ali, e o som de um lápis que escrevia, ou desenhava, ou rabiscava desinteressado. E falou -“Você tem uma doença mortal, chama-se Vida, e o sintoma é estar vivo, quer dizer, fala merda, diz baboseiras, grita injúrias, berra contra a fome com a barriga cheia, é político de sofá, defende o ambiente com as mãos no volante, é contra a guerra mas não quer refugiados no quintal, e de facto, raramente tem razão.”

Levantou-se. Viu-lhe as barbas e saiu. Mesmo sem pagar. Não disse nada. O outro ficou-se na secretária, surpreendido. Ele também tinha essa doença.

apaixonados

pescadinha-rabo-na-boca, ficamos na mesma com essas palavras. Entre a paixão e o amor vai a distância de uma vida. O primeiro é cheiro, impulso e droga, o segundo é querer-deixar-se estar. O primeiro é para a gente nova, o segundo é para quem já lamenta o pouco tempo que tem. O primeiro dura pouco, o segundo não queremos que acabe. É a diferença entre o orgasmo e uma longa conversa de esplanada. Se me disseres o que preferes, digo-te a idade.