Não levo saudades

“Não levo saudades desta vida” – disse ele e escrevo eu.

“Não diga isso. Tem neta, filhos saudáveis, mulher dedicada, que mais quer?”

Aproximou-se tão perto, baixou a voz – “Estou aqui na vertical, nem sei como, não há canto do corpo que não me doa, nem mesmo a alma. Tenho setenta anos e trabalho 15 horas por dia. Atrás de um balcão, aturo má educação, nem vejo Sol. Estou cansado. Muito.” – encostou-se ao balcão atrás dele.

“O mais espantoso, no meio desta atrapalhada toda, funciona. Isto funciona, mesmo no meio do caos.” – Disse-lhe o outro e escrevo eu.

 

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aristides

Pois bem, em Vilar Formosa estiveram famílias cujos ascendentes por ali passaram noutros tempos. Decidiram plantar uma árvore, um robusto carvalho. Muito bem. Símbolo de longevidade e força, tal como o exemplo do que este homem fez. Muito bem repito. Mas o dito carvalho está seco. Passei por lá e vi. Procurei, para o fundo da estação, junto a um lugar esquecido, um não-lugar.

A triste sina deste homem, molestado pelo facisto, molestado pela democracia, ou alguém andou a enganar alguém com a visita dos familiares? Ou alguém anda a vender a alguém qualqure sonho? Pena que se use essa história de coragem, que uns sonham que sabem o que é e outros, poucos, sabem o que significa. Será?

 

em inglês

watch the face of anyone, and you can’t see this scream that you are writing about. watch again. nothing. now, try to listen. as if you were here only for that person. listen. listen again. in ten minutes, you will start to hear it, in the beginning very quietly, almost silently. listen again. again. suddenly there it is. a big shout. explosion. perhaps a tear, only after. and a big smile. we have been human. thank you for your words.

longe ou depressa?

proverioAfricano

ofraco.wordpress.com

não sei

Veêm-se de quando em vez. Trocam um beijo e um olá, falam do tempo e ele pede-lhe um café. Os olhos sorriem, o corpo contorce-se e ela ajeita o cabelo, o sorriso fica por ali à espera da deixa dele. Fazem amor sim, nestes exiguos instantes, já me convenci disso, ao fim de tantos anos a vê-los, são os dois casados e gostam-se de olhar. Nota-se. Mas não é triste, não, são os dois de família, e sabem  disso, é mais importante do que se esconderem numa casa para trocar de corpo. Não, não, não é amor.

escritor

escritor à noite e ao fim de semana, sem nenhum livro publicado, só em pdf, um blog e muitas leituras de poucos autores. Esse desmaio não impede de seguir escritor, é assim que se sente, no caminho do maior entre o maior, é uma loucura, certo, é uma loucura.

morte

Parei e perguntei a direção. Eram dois jovens, setenta anos mais coisa menos coisa. Amigos de infância, à sombra, resguardados do Sol que já ia alto. Conversámos um bom bocado. Disto e daquilo e do comboio que já não passa faz muito tempo. Um dizia que muito bem , era barulho a mais, e para que parava homem se ninguém seguia, o outro, viu como isto fica triste, sem movimento, ninguém, vai tudo embora, até o comboio vai para mais de 30 anos, se não for quarenta diz o outro, isso já não apita desde 1975 rapaz. Tá a ver. Há muito tempo. O sacana do tempo passa depressa e não volta atrás.  No intervalo da conversa, olhei para o beiral, bem alto, o resto de telhado envelhecido e suplicante que lhes fazia sombra e fiquei preocupado. As telhas faziam equilíbrio. Ouvi-os mais um pouco e logo que pude desviei o tema: “Não têm medo que o telhado vos caia em cima?” – perguntei. “Você faz essa pergunta porque ainda é novo, ainda tem medo de morrer, nós já não… com a idade perdemos o medo.” Não consegui responder a tanta certeza, nem regatear, a conversa, a franqueza, a gentileza e o sorriso não se podem pagar.