cinema português


Não quereria que o cinema português fosse igual a outro cinema. Mas também não gosto de um estilo de cinema português dominante que assenta na ideia de contemplação, da arte pela arte, sem que se perceba de onde vem esta autocomtemplação tão intimisma, com linguagem tão própria, impossível de interpretar, impossível de dar significado e absolutamente impossível de ter paciência para lhe dar atenção. Ou pelo menos que se dê espaço ao outro género de cinema, que sabe usar a linguagem cinematográfica, o ritmo, a alegria, o tempo de espera, a reposição da memória, sei lá pá, não sou cineasta, mas discordo. Esta ideia para cinema, só esta, a de um cinema que olha para o seu umbigo e está fascinado com ele e só com ele, do princípio ao fim, e como não é o meu umbigo, desligo, saio da sala ou arrepia falar de cinema português. E isso não é bom.

(Nota: e até gosto de cinema de género poeta, como o de Andrei Tarkovski).
Continuando. A contemplação é para uma peça de arte. A Guernica no Museu do Prado, bem a podes contemplar e irás ficar ai parado, obriga-te, com cordas que te prendem ao chão. No cinema essa ideia não serve. O cinema serve para contar uma história em pouco tempo, uma história com muita informação, com linguagem que a média das pessoas entenda, seja cinematográfica, sejam palavras. Serve para dizer aos outros o que se passou. É isso, aliás que fazem os documentaristas portugueses. E há carradas de exemplos disso. “É na terra, não é na Lua”, Gonçalo Tocha, um documentário intimista sobre a ilha do Pico, mas com a força da simplicidade que derrete qualquer um. E ai somos muito bons, entramos na intimidade e somos capazes de contar o que é ser português. Até têm um chapéu típico, só dali.
É verdade que queremos com essa contemplação desacelerar a vida. É tudo muito rápido. Consumimos o planeta a um ritmo desenfreado, sem se dar conta de que é finito. Somos uma praga. Mas não o faremos contando uma história em 2h quando a podíamos contar em 10 minutos. Imagino a Nadine Labaki a contar a sua história em “E agora para onde vamos?” ao jeito português. O filme duraria uma semana! Ou um mês?
Se quisermos que o cinema português tenha algum sucesso no cinema, e sucesso significa que as pessoas têm uma boa opinião, que as salas estejam pelo menos meia-cheias, o sucesso nem é tudo, tenho ideia que o cinema iraniano ou francês são bons, é preciso que se fale dele porque temos cineastas. Esta ideia fascizante de aprovar cinema sempre “ao estilo de Manoel de Oliveira”, há outros modos de filmar, e haverá um modo de filmar português. Ainda não sabemos qual é, não pode ser este a que damos mais crédito, não pode, mas se dermos liberdade sabe-lo-emos.
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8 thoughts on “cinema português

  1. Felizmente já existem outras vertentes. Joaquim Leitão, por exemplo, sempre conseguiu chamar público às salas de cinema. Creio, no entanto, que nos colamos um pouco num certo estilo francês: filme sem mamas já não é filme.
    Da forma como as novelas evoluíram, é notório que no nosso país há um desinvestimento nesta arte. Assim como nas séries televisivas. Isto porque, bons atores nós temos. Técnicos também.

      1. e depois é aquele necessidade dos atores terem nome, serem “bonitos”. Há filmes que são feitos por pessoas normais e não nos esquecemos deles.

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