a cela que te encerra ou o que foste capaz de fazer


Sei ficar zangado. Sei que o mundo é mais complicado. Talvez não tenha é a consciência disso. Saber isso e ter consciência disso são duas coisas diferentes. Mais complicado se torna quando nos vamos debruçando sobre a sua loucura. E se pensamos muito, a coisa é tão intricada. Melhor é parar nalgum momento. E depois também custa fazer uma representação. Custa não ser sincero e trivial. Aceitar o teatro é difícil, vestir uma cara diferente, treinar uma cara diferente, consistente, é ainda mais difícil. Representar todos os dias, a cada minuto, personagens diferentes é outro sumo. Há um extremo de tudo isso: a mentira.

E aí é que a coisa se torna impossível. Quer dizer, não me é possível mentir, ponto final. Lá que se consiga uma representação ou outra, que se ajustam aqui e ali, tudo bem, mas mentir é coisa fora. Eu sei ficar zangado, e o que me sucumbe é não perceber a realidade, porque não é mesmo possível ou porque sou eu que não consigo compreender. É preciso ler. Outros terão reflectido sobre o assunto. Sabem mais. Conseguiram melhores conclusões. Compreender o à-volta-de-nós desenvolve-me e frusta. Não há respostas rápidas, não há tempo para procurar respostas, fico contraído, aprisionado, esquivo ao sonho de uma vida que vivemos mas não possuímos. Eu sei ficar zangado e muitas vezes sem reconhecer a verdadeira razão, a questão de fundo desprende-se sem que lhe veja os traços, sem que lhe admire as palavras, os sons, a pergunta. Depois, só muito depois, a questão resplandece mais simples, terá sido negligenciada, não considerada, olvidada. O inevitável. O mais importante, o mais seguro, o mais intenso: será que nos esquecemos de viver? Sei ficar zangado quando considero inútil o que para mim é determinante, o que para mim é essencial, o que para mim é imprescindível. Gostaria de me encontrar num lugar, sentar-me numa cadeira de onde pudesse perceber e observar tudo com aquela perspectiva de um sábio, de onde também se percebesse o lugar que ocupo, o que posso fazer, o que posso ajudar, onde posso ser útil. Se um dia estivesse ai o que iria gostar de observar, a cela que me impede ou a vida que devia ter vivido ou aquela que ainda posso viver? Seria o suicídio uma saída ou sorrir com o que tens? Terminar a vida deste corpo, terminar o sonho desta mente, resolve alguma coisa? Recusar a vida, valeria o quê para os outros? Seguir alegre o que falta será melhor? Viver resume-se em palavras: sofrer, crescer, engrandecer, escrever, pensar, educar, lutar, sorrir, começar e terminar. Se um dia estivesse nessa cadeira, o que gostaria de observar a cela que te encerra ou o que foste capaz de fazer mesmo que te arrastes nessa cela?

O Fraco, 7ª Parte

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2 thoughts on “a cela que te encerra ou o que foste capaz de fazer

    1. pois, para o personagem não há como não representar. E mesmo para quem quer que seja neste planeta real, são várias as caras que representas: como marido, como profissional, como amigo, conhecido, como pai ou mãe, como filho ou neto. Há outros que juntam a isso tudo ainda personalidades diferentes. Outro nível.

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