Na madrugada, já a alva anunciava o dia, vi que dormira e onde. Cansado. Dorido. A areia nunca foi boa cama. O frio húmido da madrugada acordara-me mas o cansaço adormecera-me. Foi assim toda a noite. Pés gelados. Aquela dormência, nem a dormir nem acordado, até agora. O cansaço dobrou e percebemos que dormimos qualquer coisa. Acordar. Noite de sobressalto. Medo.

Não ofereci ao corpo os privilégios burgueses de comida quente e um quarto acolhedor. Era mesmo assim. Sobreviver à natureza: um naco de pão e água eram um bom pequeno-almoço. Isso foi o que pensei ontem à noite. Hoje, dorido, digo que foi uma estupidez. Parei. Distingui o som do mar, começava a vê-lo de olhos semicerrados, mesmo ao longe, é majestoso. Uma cortina azul-verde por cima da areia amarela, ondas com as cristas despenteadas de água arremessada pelo vento, embatendo depois contra a areia quando já não água para continuar. Num repente absurdo, aquele som familiar cada vez mais perceptível, enche o ouvido e espalha-se corpo adentro; que encanto! Cerramos os olhos e vem esse cheiro a fresco de longe e não largamos o horizonte, se percorremos aquele espaço com os olhos, sorrimos como crianças de brinquedo novo na mão, por dentro respiramos o passado: foi sempre assim e sempre assim será. Há alguma coisa de perene nesta maldita vida. Recostei-me, enrolado depois,enquanto a manhã fazia esquecer a madrugada, dormitei mais um pouco, num sono virtual, sem adormecer por completo até que o Sol passava a dominar, o calor transpirava por debaixo do arbusto até se tornar incómodo. Sentei-me. Deitei-me. Revirei à procura de fresco. Fui acordando devagar outra vez, espreguicei-me, “o que fazia ali?” voltei a recostar-me, abracei a minha existência e fui invadido pela sensação de felicidade: as emoções brotejam, pulam como fatias de sorriso, quais pétalas ao nascer, breves gargalhadas, agradecimentos disparados por quem fica assim porque se sente feliz. Estava vivo e apreciava isso. É daqueles momentos em que julgamos ser possível nunca mais tocarmos a infelicidade outra vez.

O Fraco, 6ªparte: viagem ao mar

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