A máquina, a condição humana


Sonhei com uma máquina. Aquela, a máquina.

Sim, nessa que estás a pensar, a que nos representa, aquela que nos explica, sim, isso, que explicasse tudo, a nós, humanos, claro.

O outro. A outra. Enfim, todos. Aqueles e aquelas que nos passam ao lado, na rua ou num banco, num olhar ou num ecrã. E comecei a construí-la. Estava num palco e tinha uma audiência para ajudar. A ideia era mesmo a de começar pelos antagónicos, depois criar  linhas entre eles e por fim dar-lhe elasticidade. Explico. Começar por conceitos antagónicos, coisas que são escritas, não as vês, apenas as sentes e ouves falar sobre eles, coisas pelas quais lutamos, lutamos e lutaremos, como liberdade, igualdade, justiça. Ligar esses conceitos e depois cada um coloca-se num ponto em cada eixo e no fim fica uma escultura de pontos, característica de cada um.

– “O que estou eu aqui a fazer com duas esferas em cada mão?” – perguntei à audiência. Numa escrevera “FACISMO”, na outra “DEMOCRACIA PARTICIPADA”. Mostrei uma vara e estiquei-a entre as esferas, cheguei mesmo a espetar as pontas da vara em cada uma.

-“Onde é que tu estás? Nos extremos? Mais para aqui ou para ali?” – Perguntei outra vez. Quase todos responderam democracia, mas isso de participada não sabiam, percebi também que cada um dos que por ali assistiam estavam algures entre aqueles extremos e que poucos estariam num deles.

Supus que nenhum dos que responderam quiseram dizer facismo porque falar disso é amargo e exige coragem. Em boa verdade, há boca calada, diz-se que, “no outro tempo” era melhor, pelo menos havia respeito, aludindo ao facto que na época de não-pensar era melhor, havia organização, sabíamos como fazer, quem fizesse fora do eixo levava a dose. Hoje é mais difícil, temos que ser nós a escolher.

Sei que é melhor responder assim, mais seguro, os outros não me identificam, mas que resposta darias se isto acontecesse? Acredito que outros omitiram mesmo a opção facismo, como se isso não existisse, não queriam saber, era melhor não saber, os outros veriam isso com maus olhos. Adiante. Passo a explicar: se te dão de comer, a ti e aos teus filhos, e se te dizem que assim deves fazer, e se tu dizes, de ti para contigo, que a alternativa é a fome, se não o fizeres, que o chefe te diz, faz que te dou, e se pensas que “não se bate na mão que te alimenta”, que importa que uns quantos estejam entre redes, ou que morram gaseados, se eles se auto-excluam, se nunca me disseram bom dia, se viviam ricos e sabedores? Que farias tu, se um humano se chegasse exilado, às costas do teu país, açoitado? Que fazes tu, se eles chegam todos os dias? Aceitas fechar as fronteiras ou preferes que alguém o resolva por ti, que não queres as mãos sujas? Como se sentiriam as famílias alemãs, os pais e mães?

Noutro tempo, noutros lugares, e ainda hoje noutros lugares, a resposta seria facismo, era isso o sinónimo de progresso, futuro, justiça. Era isso que todos diziam. Quem eras tu para discordar? Que coragem seria necessária para defender coisa diferente. A mesma que é hoje necessária para defender o facismo. Portanto, MUITA. Se falamos de alguém que defendeu outros, por puro altruísmo ou por vingança, contra a crueldade e a indiferença, a intolerância e a liberdade, então estamos a falar de coragem, não importa o que deu lugar a essa coragem, não importa a sua origem.

No fim não saiu uma máquina mas uma escultura a umas quantas dimensões. Onde ficas tu dentro dessa máquina?

(em construção) Podes acrescentar alguma coisa?

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Antagonismos (Brainstorming)

FACISMO SOLIDARIEDADE

TOLERÂNCIA INTOLERÂNCIA

COLETIVO INDIVIDUAL

COMPETIÇÃO COOPERAÇÃO

COMPETIÇÃO COLABORAÇÃO

CORAGEM COBARDIA

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