deixei


deixei a tua mão estendida por cima de um lençol que não é o nosso. Num quarto que não é o nosso. Com uma janela que também não é a nossa. E dessa luz que lhe entrava, vi-as como nunca as vira, sossegadas, tão grandes como as minhas, com tanto tempo como o meu, manchas pintadas, pele desmaiada, à espera que as deixasse partir. Deslizei a minha sobre a tua, uma e outra vez. E não sei qual foi a última. Não quis saber. Fechei-te os olhos e alguém perguntou se te podíamos levar. – “Não podem não…” – pensei eu, mas a minha cabeça acenou apenas o suficiente para concordar. Entrou uma equipa de limpeza de rompante. O nosso tempo terminara. Ao mesmo tempo sai eu, empurrado pelo braço. E o que custa mais não é que o teu corpo parta, é que a minha memória se esqueça de ti. É que os gentis momentos que nos dedicamos se esfumem, que os esqueça. Deixei a tua mão estendida, como noutros dias te deixei aninhada na nossa cama, mas desta vez não regressaria ao quarto, dessa vez não te vou voltar a olhar para te sussurar “Amo-te doce”.

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