morrer


a quem morre diferença não faz, a quem fica, é o psicológico que se altera. O lugar onde não podes pôr as mãos, nem consegues apontar, muito menos dar uma direcção. Esse lugar psicológico modifica-se, distorce-se, contorce-se, desaparece. O teu Sol é comido aos bocados, a tua casa esfria, a terra onde vives perde paragens.

Morrer é desaparecer, sem se reconhecer onde se está. Viver é perder-se, é tornar-se forasteiro na tua própria casa, nos teus próprios lugares, à procura do que já foi.

Morrer, para quem fica, é mudança, abrupta, definitiva; o espaço, físico e psicológico, quando alguém te morre, torce-se, arrepende-se, agarra-se, verga como palha, chora-se de roda, já gritar não te serve, se não para te aceitares como novo serpessoa; embaralha-se o teu corpo com o novo espaço emocional que cresce e ficas-te sem saber o que fazer, em que direcção seguir.

Pára-te o cérebro, há uma silhueta que falta aqui, há uma sombra que não se desenha, há alguém que deveria segurar estes objectos, salpicados por cima de mesas, cadeiras e camas, que se estendem casa adentro, outrora afagados pelas mãos de quem saiu sem saber, arrumados e desarrumados por quem lhes sabia o lugar.

Falta quem arraste a mesa, quem lhe coloque a  toalha, quem ligue a televisão, ou faça o café de sempre, “este café foi uma pechincha”, ou se se despedia, depois do beijo, “Volta sempre que quiseres, há sempre lugar para mais um”.  E saber que aquele “mais um” tem pessoa dentro, e essa, sou eu, apenas eu!

Qual terá sido o último beijo, qual terá sido o último olhar que trocámos? Se fosse possível voltar por ai, segurar essa recordação… Enche-te o peito espremido por dentro, soltasse um gemido mudo, inútil, incapaz de fazer voltar, falta o ar, suspiras derrotado, a falta daquelas palavras, o remorso de não ter estado por mais um pouco, abana-se a cabeça, essa companhia não estará, estalas os lábios em desalinho, caiem-te os braços, lanças as mãos em derrota, rodas o corpo em fuga, o afago de um olá familiar não estará, a relíquia de um carinho não estará, a voz familiar não estará.

Quem te ouviu não estará, quem te fala assim não estará, nunca mais estará, quem te falou pertence ao passado, quem te ensinou não fica. E o futuro encurta essas peças únicas. Dá-lhes brilho agora, amanhã não estarão. Amanhã não estará quem te dê lugar à mesa e te lance um sorriso daqueles que só o coração pode.

Passa o olhar pelas fotos traiçoeiras. Guardam um pequeníssimo pedaço de tempo do passado. Do passado. Se eu lhes tocar, se eu me aproximar das fotos, se eu me esforçar muito, muito mesmo para entrar nelas, porque raio não é possível, nem que seja por um minúsculo momento, voltar ao instante em que estávamos a sorrir? “cheese” disse o fotógrafo, e tu atiraste o teu pior queijo inglês e gargalhámos com a alma, alegres porque estávamos ao lado,  sem saber que um dia te olharia do lado de fora desta foto. Bem poderia ser ao contrário, bem poderias ter sido tu a olhar agora nesta foto, não fora este capricho da sorte, teres partido me primeiro. Sei que também estarias assim, a pensar de mim.

Não identificamos a felicidade quando nadamos nela, só lhe vemos o fresco quando queremos voltar atrás, sacar esse momento, resgatá-lo sem tréguas,  malfadada lei do tempo, que nos empurra sempre em frente, como polícia de choque acossada pelo chefe.

E por fim, é preciso deixar ir. Deixar-te morrer por inteiro. Tenho de te largar. Deixar-te. Tenho de prosseguir. Ainda tenho vida para terminar.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s