melhores do que os outros


Em cada cabeça, nalguns dos pensamentos, naqueles em que nos comparamos, salta sempre a ideia de que melhor do que os outros somos nós. Estou a falar daquele ínfimo bocado da ideia. No meio dos pensamentos, ao fundo do quarto de pensar, no cantinho mais escondido, está lá essa ideia, como se fosse um brinquedo esquecido ou uma moeda perdida no chão.

Estranho. Nessa divisão da casa, nunca verbalizámos isso. Nunca nas palavras ditas está a ideia de que, em qualquer circunstância, somos melhores do que os outros. Ainda que pensemos de modo diferente, ainda que a opinião que se forme, em pensamento, ou quando verbalizamos seja exactamente ao contrário: ou melhor, algumas vezes ao contrário. Mas quando a pensamos está lá, ainda que em ponto pequeno. A estranheza é a contradição entre o que podemos ver no pensamento e aquilo que falamos aos outros. Ambos são espontâneos. O que é um facto. E poucas vezes nos lembramos disso. Se o dizemos, ou mesmo que o consigamos apenas pensar, a frase somos melhores do que os outros, ou o seu contrário, somos piores do que os outros, tem que ter uma escala de um aspecto, para que possamos perguntar: em que aspecto és melhor do que os outros?

É verdade. Não somos absolutamente melhores ou piores do que os outros. Existem aspectos em que somos melhores e outros em que somos piores. Não existe uma escala absoluta que te diga: este é melhor do que aquele em todos os aspectos. Acabamos por concordar que avaliamos muitos aspectos, nalguns deles seremos melhores do que outros, mas somos sempre confrontados com essa pequenina ideia que salta em certas ocasiões em que gostamos de dizer que afinal somos melhores.

Vai dai, a mulher dele dissera-lhe: o Francisco está de cama com gripe. O Francisco é um conhecido. Pensei eu, eh pá, eu não estou com gripe e acho, sentido-me forte como me sinto, não a vou apanhar. Aliás, tenho até praticado desporto, melhorado a alimentação e tenho a certeza de que a cama não será lugar para a gripe que não virá. Esse, que pouco se cuida, fraco que é, está de cama volta e meia. Eu sou melhor do que esse. Nesse dia somos melhores. Acontece que o Francisco é médico. Imerge todos os dias numa densidade de agentes patogénicos…

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