Até que ponto somos dos outros?


Mar Adentro

Apesar da liberdade a que todos temos direito, os limites são estranhos. Como defini-los? Se o Ramon tem o direito de escolher quando partir, quais são os direitos de quem cuidou dele durante 27 anos? Quais são os direitos do pai, da cunhada, do sobrinho, do irmão? Diz o pai. “Pior do que a morte de um filho, é ele querer morrer.”

A cena em que ele parte, tão subitamente, é forte: é impossível não chorar. Não sei o que faria se estivesse no lugar dele. Teoricamente sei. Trataria de por termo à vida, porque não concebo a vida se não do modo em que a vivo. Se quando temos todas as faculdades podemos fazê-lo, quando estamos na posição do Ramon, já é bem mais difícil. Essa diferença é crucial. Qualquer um se pode suicidar. Ramon bem quer, mas não pode. Por isso é estranho. Não se pode ajudar ninguém a morrer. Essa decisão não tem razões universais. Cada um tratará de decidir. Quando o faz, tenho a certeza que pensará em si e nos outros. E decidirá. A liberdade de decisão é que me preocupa: não a tê-la, assusta. A justiça, imersa nesta cultura do primado da vida, fica refém nestas situações.

Se em teoria é fácil, na prática… não o é. Imerso nesse dilema de aceitar a vida como ela vem, ou de decidir termina-la, envolvido nas emoções de deixar a vida, de deixar a respiração, o ver, o sentir, o criar. Choca-se com frequência com o abandono, abandonar quem se gosta, gorar expectativas, ferir quem se ama, quem se quer pelo coração. Ainda fica quem tem tomado conta, com tanto empenho. Apertado pelo pescoço, limitado à horizontal em que a fronteira da cama já é muito longe, engolido pela decisão definitiva, irreversível, sem retorno, quero eu deixar o que gosto de fazer, viver, respirar, ver, sentir o vento, o mar, o sol, ou o frio o medo e a a alegria? Mas aqui, nesta cama, poucas vezes se sorri, e nessas é apenas para agradar, para que quem se acerca não sofra também.

E os familiares dele. Que justiça para a cunhada que se dedicou de modo tão inteiro? Como não sofrer? Mesmo assim, que comparação com o sofrimento de quem está numa cama, preso! Diremos também que os outros se habituaram, e que esse sofrimento será só porque, de um momento para o outro, deixaram de ter aquilo a que se tinham habituado. Se o teu filho se quisesse matar, o que farias? O teu amor seria o de o demover ou o de o ajudar? Que justificação terias para uma e outra coisa? Dirias que a vida é para se viver tal como vem ou dirias que cada um deve decidir como deseja vivê-la? Qualquer uma serve, qual escolherias? É a escolha que dói, é a decisão que faz estremecer, é o medo da montanha russa que se seguirá.

Por mim, acho que estas decisões têm que estar definidas por quem de direito, ou seja, o próprio. Mas aceito que outros achem que assim não deveria ser. Sei que existem argumentos bem fortes no sentido contrário. Que direitos têm os outros sobre nós? Onde termina o nosso e começa o do outro? Estas respostas são similares à escolha da religião, podemos discutir a religião, mas nunca haverá argumento contra a escolha que cada um faz sobre a sua própria fé. Para mim, os direitos da família, dos amigos, ficam atrás do direito que cada tem de decidir como deseja viver, que condições acha que deve ter para viver.

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