escrever

As palavras fogem e queimam. E o escritor também. Foge cobarde a sete pés. Não vê uma, não se lembra, nem de uma, uma que se encaixe, mesmo que o faça retorcida esbaforida louca.

E outras vezes, como raio vieste tu aqui parar!? Acontece no fim, quase sempre ao terminar o parágrafo, vem uma simpática que se deita meliflua como seda. Ah, se isso acontece, morre.

Não lhe deu a sorte talento para acompanhar a vontade de ser um escritor. Será pela fama? Então é parvo, porque ao fim de tanto tempo não tem nenhuma e continua a puta da tarefa. Será pelo sucesso? Parvo ainda maior porque não tem nenhum! Fica-se a vontade. É só porque sim. Se olha, vê, sente, logo escreve num resto de papel se for isso que esteja à mão. Outras vezes anda um mote de uma história a correr atrás. Escreve-me!, diz.

E que vai fazer? Escreve, como sabe e quando pode. A caneta agarra-se à mão e ao papel e deixa recados de outras histórias, de outras pessoas. Outras vezes não foi a tempo de as escrever e fica-se, qual era a ideia? Não quereria que ficassem esquecidas, sejam histórias, lugares ou coisas de todos os dias. E vai dai crescem mais umas quantas palavras no papel. E ao fim de tanto tempo tens um livro que vale quase nada. Escreve. Palavras que digam ao ouvido, viu, ouviu, sentiu e sabe. A cada uma vais perguntando que merda faço eu se escrever é tão difícil e há quem o faça deliciosamente. Escreve.

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fama

É essa pressão de todos os dias, em todos nós, o sucesso, seja lá o que cada um entende que seja, ou porque quer ser rico, ou porque quer ser engenheiro ou porque prefere escrever, ou porque quer ser famoso.

A empresa quer ter sucesso. O saldo tem que ser positivo, nem que seja maquilhado. A dúvida é mesmo: alguma empresa, alguma vez teve saldo positivo? Acho que não. A falência deixa sempre uns com saldo positivo e os outros que foram roubados. Há uma fatura que vem depois. Portanto vão ficando uns ricos e os outros mais pobres. A lógica de um empresa não é a lógica da generosidade. É mesmo assim. Se não o fizerem terminam como empresa. E nos livros  o mesmo, Que interessa a qualidade da escrita ou da reflexão que faz ou do que dá aos outros ou do autor, interessa que venda.

Para quem escreve, a fama é uma tragédia sempre no mesmo ato, dai os escritores, quando aparecem são já de tenra idade. Viajaram anónimos, reflectiram e podem dar agora, libertam a generosidade da sua escrita. Que importa que escrevam bem ou mal, interessa que deixem o que pensaram, libertem o que viram, o que concluiram. E quanto à honestidade, não te faz rico mas sossegado. Sais à rua sem medo. E sentaste numa esplanada sem reservas. Não há nada melhor que viajar anónimo.

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casa

“A nossa guerra acabou, e estamos escondidos numa toca de terra e temos de sair e recomeçar a caminhar. Esta é a casa de Schmulek que não tem casa, que perdeu tudo, até a si próprio. Onde está a minha casa? Não está em lugar nenhum. Está na mochila que trago comigo, está no Heinkel abatido, está em Novoselki, está no acampamento de Turov e no de Edek, está para çá do mar, no país do conto de fadas, onde o leite e o mel escorrem pelo chão. Uma pessoa entra em casa e pendura as roupas e as recordações; onde penduras as tua recordações, Mendel filho de Nachman?”

Primo Levi, p.254,  Se não agora, quando?, D.Quixote, 2015

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coração está lá

Disseste tu mas não pensei eu -”fiz a minha vida aqui mas o meu coração está lá”- nem pensei e não sabia, que se podia viver estando o coração morto. Mas é assim. Andamos todos assim. Ou somos todos assim. Ou é mesmo assim, gerações atrás de gerações. O coração bate e trabalhamos para comer e sobretudo para dar de comer. A vida passou, como passou por outros, um arzinho leve e suave como seda, e já nada é nada quando amolecemos, com o coração sem vida. E lá vem um momento, se chegas a casa ou se abraças outra vida, se ficas para falar de coisa nenhuma, com um valente sorriso por dentro, uma gargalhada por fora, e vives. Ou se vem um resto de tarde fresco, ou se te sentaste numa madrugada limpa, junto ao mar ou a ouvir a passarada. E vives. E se caminhas vives -“Ainda bem que vivo.” -Dizes tu mas não ouvi eu. É disto que falo quando falamos de vida. E se tu sabes eu também pensei e se tu não dizes eu também não. Escrevo para te dizer, estando sozinhos não estamos, somos todos do mesmo barco, e passamos todos por tudo ou quase tudo, desde a felicidade à ternura, da miséria à tristeza.

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ambições

orhan_pamuk_2009_shankbone

“…o livro é acerca de como abandonar todas as outras ambições para se tornar escritor, ou mais do que um escritor.” sobre o solitário Pamuk em Istambul, p.61, Paul Theroux, Comboio-Fantasma para o Oriente, Quetzal, 2013.

 

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o teu

Pois. Esse é mesmo o teu caminho. Sim. Tu que agora me lês e que acordas a pensar da infelicidade da sorte, aquilo que poderias ter feito e o que fizeste, por onde andaste e não devias, o que és e não queres, onde estás e não desejas, o que tens e poderias ter (o que menos interessa). Aceita. Onde estás, o que fazes e o que és. Se pensas, faz o que pensas. Mas aceita o que és assim, ponto.

setembro 2016, Franz E.

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como vais?

Não poderia estar melhor

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ler e escrever

O que seria um sem o outro?
“A arte de ler é, em muitas maneiras, contrária à arte de escrever. Ler é um ofício que enriquece o texto concebido pelo autor, aprofundado-o e tornando-o mais complexo, concentrando-o par que reflicta a experiência pessoal pessoal do leitor e expandindo-o para que alcance os mais longínquos confins do universo do leitor e mais além. Escrever, ao invés, é a arte da resignação- o escritor tem de aceitar o facto de que o texto final não será mais do que um reflexo turvo da obra que concebera na emnte, menos ilumnado, menos subtil, menos pungente, mesno preciso.”
Alberto Manguel, Uma História da Curiosidade, p.12, Tinta da China, MMXV, Lisboa.
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Qual é a tua pergunta crucial?

“Talvez toda a curiosidade possa ser resumida na famosa pergunta de Michel Montaigne, “Que sais-je?”, “Que sei eu?” [1].
 
A pensar nisto, talvez que uma pergunta melhor fosse, “o que quero eu saber?” E ai poderemos saber, poderás saber, qual o caminho que vais percorrer.
 
[1]. Alberto Manguel, Uma História da Curiosidade, p.12, Tinta da China, MMXV, Lisboa.
Qual será a tua pergunta crucial?

Que sei eu?

Que quero eu saber?

O que quero fazer?

Outra

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Perguntas cruciais

e outros a pensar noutras perguntas

Guardian, Londres, 2010
O que é a consciência?
O que aconteceu antes do BIG BANG?
A ciência e a engenharia alguma vez nos devolverão a individualidade?
Como lidaremos com o crescimento da população mundial?
Os números primos obedecem a um padrão?
Podemos fazer com que o modo científico de pensar se aplique a todos os campos?
Como podemos garantir que a humanidade sobrevive e prospera?
Alguém consegue explicar conscientemente o significado do espaço infinito?
Algum dia conseguirei gravar o meu cérebro como gravo um programa de televisão?
A humanidade pode chegar às estrelas?
 
Alberto Manguel, Uma História da Curiosidade, p.13, Tinta da China, MMXV, Lisboa.
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