amizade também morre

está ai com a cara esmagada, a cabeça pousada no balcão, e o bar a fechar.

-“Quero um whisky.” –

-” E sirva ai o companheiro. Parece com falta de ar, ou melhor de alma” – o outro não tugiu nem mugiu.

– “Bebo sozinho.” – Era assim há tempo demais. Tanto que já não importava. Importar importava, mas que fazer? Ele não sabia, e também, que interessa, só porque se tem uma dor permanente, habituamo-nos. E que importa que tenhas dor ou não, amanhã nasce o sol e depois segue a morte num dia qualquer cuja data nem interessa. Os amigos fugiram, ou foi ele que partiu. Ou tornaram-se insuportáveis. 

Parece que os homens em certa idade são impossíveis de se aturar. E essa última amizade morreu. Nem imaginava que uma amizade dessas, daquelas especiais que vem da tropa ou de se ter passado uma qualquer dificuldade com alguém. Com esse alguém. E se pensas que a partir daí não foge não acaba não nada. E se precisas telefonas, e se não precisas telefonas também,. E alguém vai ouvir ou és tu que ouves. Era mesmo assim, e com aquela pessoa aquela amizade estavas em casa.

Ainda que a pessoa vivesse, mas tornou-se pedinte, pior do que isso moribundo, sem nada que fizesse ou quisesse fazer, nem amostra era do que foi. Morrera como morremos todos, de falta de qualquer coisa, uns até morrem mesmo antes de cair o corpo na terra. Houve até um jantar, já era defunda a amizade. Todos notaram, ninguém quiz dizer. Morre como morre tudo. Ponto final. E que interessa que morra, se a vida continua para que quem se sente vivo, e os que mortos vivem, os minutos contam na mesma, mas não contam para nada que de rancor que vivem, rancor até aos ossos.

 

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livres

“Quando perdemos o direito de ser diferentes perdemos o privilégio de ser livres” – Charles Evans Hughes, 1862-1948

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O primeiro Holocausto

Durou vários anos, antes e depois da I Guerra Mundial, e matou quase 1,5 milhões de arménios. A prova podes buscá-la com as mãos. No monte de Margana, nas águas do Habur. As pessoas atadas, desnutridas, famintas, cansadas e nuas eram colocadas num monte acima do rio. Dava-se um tiro numa e o corpo inerte arrastava as outras.

“Quando afastei com os dedos a terra do outro lado da ravina, apareceu um esqueleto inteiro”. Isabell Ellsen, fotógrafa do The Independent, descobriu a prova terrível, passou a mão pela “terra castanha e ficou a olhar para um crânio.”

 

Empilhem os corpos em Austerlitz e Waterloo,

Enterrem-nos e deixem-me trabalhar –

eu sou a relva , eu cubro tudo

E empilhem-nos até ao alto em Gettysburg

E empilhem-nos até ao alto em Ypres e Verdun

Enterrem-nos e deixem-me trabalhar.

Dois anos, dez anos e os passageiros eprguntam ao condutor:

Que lugar é este?

Onde estamos agora?

Eu sou a relva,

Deixem-me trabalhar

Carl Sandburg, <>

Referência:

A Grande Guerra Pela Civilização, Robert Fisk, p.371, Edições 70, 2ª edição, 2009

https://pt.wikipedia.org/wiki/Genoc%C3%ADdio_arm%C3%AAnio#cite_note-11

 

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Alepo

é da guerra que vêm e querem paz como tu

Alepo

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velocidade, pouca terra

se te perguntassem a diferença. a diferença nos quarentas anos. dirias, a velocidade? Eu sim. a velocidade, só por si é inevitável. e é ao mesmo tempo o que se sente mais. mas tão exagerada, tão exagerada, que tira o sumo a tudo isto a que se chama vida. e se ela pode ter sumo. falo da vida. tem sumo, muito. quem fica parado? Ninguém. mas a esta velocidade consumimos energia a uma razão tão exagerada, uma potência que já não supreende ninguém mas que nos deixa ansiosos por silêncio de tempos a tempos. e nesse silêncio vê-se o tempo que se gasta em ninharias desnecessárias. é como comer uma pêra nascida num pomar esquecido. mais pequena, menos vistosa, mas com um sumo, encorpada pela pouca velcoidade mas muita terra, muito cheiro e tempo para a acariciar, cheira e paladar. um paladar tal que cada dentada é um segredo que queremos guardar.

“levo duas horas daqui ali, eu levo três dias, se puder, mas quero sempre demorear mais tempo, sempre”, Franz E., nov 2016

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caos

se estás com as balas à distância

como podes falar disso

se vives sem os escombros na pele

como podes falar disso

e se por lá estivesses

se por lá vivesses

como falarias então

que mais acrescentarias

voariam mais pedras,

gemeriam mais ainda

cairiam do céu, pernas, braços e almas

haveria mais corpos para transportar

mais restos para abandonar

e o que transportariam senão corpos, por vezes nús, bem certo

e os lamentos, as melodias, quais seriam, haveria?

não sabemos que significa guerra, não nos diz nada, não ilumina nada,não se pensa em nada, só suposições que vêem de longe de muito longe, não tem significado, não te causa vertigens, daquelas que surgem automáticas, já lá estive, nem te quebra o corpo, nem te vaza a vista, nem te vaza a vista, nem sentes a faca afiada a cortar a pele, e depois a carne, e depois o pulmão e por fim o coração, o cheiro a carne pobre, a sangue morto. Sabes o que é a guerra, não sabes, alguns de nós pelos menos, o que significa.

Há quem saiba o que significa a guerra. Têm cabelos brancos e estão esquecidos neste país. às vezes ouvem-se, mas não se escutam.

sei só de paz e que de paz estão sempre à procura como pão seco de água precisa, toda a gente deste planeta

Franz E., novembro 2016

a propósito do espetáculo da Olga Roriz, Antes que matem os elefantes

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no comment

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Nobel 2016

há mais dificil, mas esta consegue-se, ouve-se. Não precisa de comentários, fala por si. Todas tem uma história, alicerces que faltam a outras tantas ditas obras de arte e cultura que jorram todos os dias à velocidade do dinheiro. Quando se quer deixar algo de humano o dinheiro não interessa, a não ser para uma malga de sopa.

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doente

Disse ele – “é isso. estou doente. nem falo das dores de fora. é mais as de dentro. disrupções éticas. lamentações teóricas. fodelhisses miseráveis. nadisses sem jeito nenhum. que interessa. a mim vem de dentro e descaca o ovo, fico em carne viva”

Do outro lado da secretária, via-lhe a careca seca, baloiçando à vez, daqui para ali, e o som de um lápis que escrevia, ou desenhava, ou rabiscava desinteressado. E falou -“Você tem uma doença mortal, chama-se Vida, e o sintoma é estar vivo, quer dizer, fala merda, diz baboseiras, grita injúrias, berra contra a fome com a barriga cheia, é político de sofá, defende o ambiente com as mãos no volante, é contra a guerra mas não quer refugiados no quintal, e de facto, raramente tem razão.”

Levantou-se. Viu-lhe as barbas e saiu. Mesmo sem pagar. Não disse nada. O outro ficou-se na secretária, surpreendido. Ele também tinha essa doença.

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Dylan, Prémio Nobel da Literatura 2016 — Exílio de Andarilho

Naturalmente estou radiante com prémio da literatura para Bob Dylan É justamente merecido. A sua poesia é marcante e a sua escrita inovadora. As críticas que vejo aí pelas redes sociais é de quem nem se deu ao trabalho de ler a letra de uma das suas canções de fio a pavio. Só sabem o […]

via Dylan, Prémio Nobel da Literatura 2016 — Exílio de Andarilho

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